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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ética

                                                                                                                              Ronaldo Campos



A Ética: é uma parte da filosofia que busca refletir sobre o comportamento humano sob o ponto de vista das noções de bem e de mal, de justo e de injusto, abrangido as normas morais e as normas jurídicas.

As normas morais surgem quando as questões éticas são colocadas pelos indivíduos ou grupos sociais e respondidas apenas por suas consciências (individual e coletiva). As normas da sociedade são os meios pelos quais os valores morais de uma sociedade são expressos e adquirem um caráter normativo, isto é, obrigatório. Normas, normativo, normal, moral e costumes são palavras que estão interligadas em torno da questão ética.

Quando todos aceitam os costumes e os valores morais estabelecidos na sociedade não há necessidade de muita discussão sobre eles. Mas quando surgem questionamentos sobre a validade de determinados valores ou costumes, surge a necessidade de fundamentar teoricamente estes valores vividos de uma norma prática. E, para aqueles que não concordam, a de criticá-los.

O conceito ética, que vem do grego ethos, mas de um modo geral é comum usar o conceito de ética e moral como sinônimos ou, quando muito, a ética é definida como o conjunto das práticas morais de uma determinada sociedade, ou então os princípios que norteiam estas práticas.Quando se diferencia a ética da moral, geralmente visa-se distinguir o conjunto das práticas morais cristalizadas pelo costume e convenção social dos princípios teóricos que as fundamentam ou criticam. Assim, o conceito de ética é usado aqui para se referir à teoria sobre a prática moral. Ética seria então uma reflexão teórica que analisa e critica ou legitima os fundamentos e princípios que regem um determinado sistema moral dimensão prática.

Não é raro na história o surgimento de filósofos ou profetas que propõem um sistema ético criticando a moral vigente e propondo uma revolução nos valores e normas estabelecidas da sociedade.

Nós somos seres morais e as comunidades humanas sempre criaram sistemas de valores e normas morais para possibilitar a convivência social, porque somos seres não determinados pela natureza ou pelo destino/Deus. E no processo de conquista da liberdade e do nosso ser descobrimos a diferença entre o ser e o dever-se e a vontade de construir um futuro diferente e melhor do que o presente. Para esta construção não bastam boas intenções, mas também um controle sobre os efeitos não intencionais das nossas ações e o conhecimento de que o questionamento moral pressupõe um conflito entre interesse imediato e a longo prazo e entre interesse particular e o da coletividade.

A consciência ética que surge desse conjunto é diferente de uma simples assimilação de valores e normas morais vigentes na sociedade. Ela surge com a "desconfiança" de que os valores morais da sociedade – ou os meus – encobrem algum interesse particular não confessável ou inconsciente que rompe com as próprias causas geradoras da moral. Ou então surge da desconfiança de que interesses imediatos e menores são colocados acima dos objetivos maiores, os interesses particulares acima do bem da coletividade, ou que é negada aos seres humanos a sua liberdade e a sua dignidade em nome de valores petrificados ou de pseudoteorias.

Ética é para nós uma dimensão que nos permite o questionamento sobre as práticas, atitudes, regras e ações humanas. Para que este questionamento seja possível é necessário saber qual o critério que estamos usando para avaliar a ação humana. O critério que assumimos é a própria vida humana. Partimos do princípio de que as sociedades existem para garantir a sobrevivência dos seres humanos e, mais do que isso, uma existência digna com acesso a tudo que seja necessário ao seu pleno desenvolvimento.

A função social da moral é exatamente contribuir na obtenção desse objetivo, normalizando as relações entre os seres humanos entre si, com a comunidade e com a natureza. Sendo assim, a vida deve ser o critério para avaliar as atitudes da sociedade e dos indivíduos. Além desse critério devemos considerar que a ética exige mudanças de atitudes. Hoje mais do que nunca a humanidade se dá conta de que vivemos em um mundo globalizado, onde as ações de um repercutem diretamente na vida dos outros. Esta constatação é mais visível quando pensamos nos problemas ecológicos, no racismo e na guerra, que são todos problemas onde as repostas individuais ou grupais não conseguem resposta construída com a participação de todos os grupos envolvidos. O que exige a construção de uma ética com princípios e valores aceitos por todos e válidos para todos, apesar de todas as diferenças.Igualmente distante do individualismo e do essencialismo está a ética da responsabilidade. Nessa perspectiva cada grupo social determina consensualmente os padrões de conduta que devem ser seguidos pelos indivíduos desse grupo. Estes padrões, porém, não devem ser vistos como universais e imutáveis, mas sim relativos a cada situação determinada e sempre sujeitos a mudanças, caso a comunidade as julgue necessárias.




terça-feira, 6 de março de 2012

O QI de uma modelo...


Outro dia, no consultório de um dentista, vi uma revista Veja tão antiga. Nesse verdadeiro documento histórico, fizeram  uma crítica a fala de uma determinada modelo. Pesquisei e depois resovi escrever sobre esse fato da vida da ex-mulher do fenômeno.

A frase "Toda modelo é burra" certa vez foi usada como forma de Protesto por uma agência da capital federal para questionar a fala da Daniele Cicarelli. Acontece que essa frase serve para julgar certas pessoas. Na época, a agência publicitária afirmou genericamente que toda modelo é burra por que no programa global do Jô Soares, a "modelo" Danielle Cicarelli disse que "rouba" tão bem no jogo que parece ter nascido em Brasília, o seu objetivo não era criar uma imagem negativa que deixaria para todo o sempre uma enorme mácula sobre toda a capital federal. Pelo contrário, era uma simples piada como tantas outras que ouvimos diariamente que são construídas a partir de generalizações e estereótipos. MAS POR QUE JUSTAMENTE A PIADA DA DONA "CICA" FOI TÃO POLÉMICA? A resposta é simples: preconceito"


Se não for por preconceito como explicaria tanto alvoroço em torno de uma simples gafe proferida por uma “modelo” num programa de TV? Será que esses senhores nunca leram as colunas do José Simão na Folha de São Paulo ou ouviram os comentários do Arnaldo Jabor na Globo? Ou será que a “modelo” é tão nefasta quanto o orador Cícero foi para Catilina?

Posso responde de uma forma bastante simples: tudo não passa de mais um ato de discriminação contra a mulher. Ou seja, temos na “brilhante” frase criada pela tal agência de publicidade mais um exemplo de preconceito de gênero.

Se a frase dita por Cicarelli tivesse sido de um homem, com quase cem por cento de certeza, não teria gerado tamanha repercussão. Se isso não for verdade, então por que a práxis de tantos humoristas e apresentadores que já brincaram com a má fama de Brasília em inúmeras situações não tiveram o mesmo destino? A diferença é que Cicarelli pertence ao gênero feminino e (para muitos homens ainda hoje) política não é coisa de mulher. Quando uma modelo resolve brincar com tal tema, segundo tais senhores, essa mulher deve ser advertida de forma exemplar para que nenhuma outra siga o seu exemplo. Vocês já pensaram se amanhã num programa vespertino a Carla Perez e a Lacraia resolverem discutir política... Para tais senhores, isso seria o fim do mundo...

Tenho certeza que muitos estão vendo na minha fala algo parecido com a teoria da conspiração. Será que eu estou vendo preconceitos por todo lado?

Mas se mudássemos a frase construída por tal agência com o objetivo de dar ênfase a outro aspecto da carreira ou formação da Daniella Cicarelli. Visto que segundo o site da modelo “antes, [ela] cursava Administração de Empresas e fazia pequenos trabalhos. [segundo depoimento pessoal:] ‘Acabei me tornando modelo por insistência’.” Além desse curso, sabemos que ela foi (e é) atriz (fez novela na Globo), atleta, apresentadora de TV... Então, se a frase publicada em jornais de circulação nacional fosse “TODA ALUNA DO CURSO DE ADMINISTRAÇÃO É BURRA” ou “TODA ATRIZ É BURRA” ou “TODA APRESENTADORA É BURRA” ou “TODA ATLETA É BURRA”. Qual teria sido o efeito?

Por que escolheram a frase “TODA MODELO É BURRA”? Talvez seria pelo fato de ser uma profissão dominada por mulheres? Ou talvez seria pelo fato da carreira de modelo está vinculada a beleza e este é um atributo tipicamente feminino?

Em suma, vocês mandaram um recado para a Cicarelli endereçado também a todas as mulheres deixando claro que não se deve se intrometer em assuntos de homens. Ela e as outras devem se preocupar apenas com frivolidades, amenidades, no máximo, com assunto dos cadernos de cultura...

E, depois dizem que vivemos numa democracia com liberdade de imprensa. A tal da liberdade até que existe... Mas apenas para alguns senhores que vivem segundo as regras criadas por eles e para eles na mais perfeita dentre todas as cidades brasileiras... Não se esqueça que o modelo ideal de democracia é o da cidade grega de Atenas. E lá mulheres, escravos e estrangeiros não tinha acesso ao mundo da polis.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

esquecer e lembrar



A analogia entre arte bela e natureza bela

                                              A analogia entre arte bela e natureza bela

                                                                                      Texto Ronaldo Campos




De acordo com Luigi Pareyson, a arte tem por fim o sentimento de prazer, sendo, deste modo, uma finalidade prática que produz objetos belos que agradam por si. Essa finalidade consiste na realização de objetos predispostos a satisfazer a necessidade do livre jogo das faculdades cognoscitivas; e, uma vez que a predisposição para o livre jogo das faculdades cognoscitivas é final subjetivo, temos aqui uma verdadeira inclusão da finalidade subjetiva internamente a uma finalidade objetiva, isto é, o acordo com o livre jogo é o fim de um processo de realização. Aquilo que é evidente para a arte também pode ser aplicado na natureza. A finalidade subjetiva dos objetos naturais belos pode ser interpretada como objetiva no sentido de que a natureza si interpreta como aquela que é, de per si, finalisticamente ordenadas às nossas faculdades cognoscitivas . Deste modo, “as belas florações no reino da natureza organizada falam muito em prol do realismo da conformidade a fins estética da natureza, já que se poderia admitir que na causa produtora à base da produção do belo tenha jazido uma idéia dele, a saber um fim favorável a nossa faculdade de imaginação. As florações e até as figuras de plantas inteiras, a elegância das formações animais de todas as espécies, desnecessárias ao próprio uso mas por assim dizer escolhidas para o nosso gosto; principalmente, a multiplicidade das cores, tão complacente e atraente aos nossos olhos, e a sua composição harmônica (no faisão, em crustáceos, em insetos e até nas flores mais comuns), que, enquanto concernem simplesmente à superfície e também nesta nem sequer à figura das criaturas - a qual contudo ainda poderia ser requerida para os fins internos das mesmas - parecem visar inteiramente à contemplação externa: conferem um grande peso ao modo de explicação mediante a adoção de fins efetivos da natureza para faculdade de juízo estética” . Nesse sentido, podemos falar que a natureza apresenta uma analogia com a arte. Pois, diante de um produto da arte bela tem-se que tomar consciência de que ele é arte e não natureza. Todavia, a conformidade a fins na forma do mesmo tem que parecer tão livre de toda coerção de regras arbitrarias, como se ele fosse um produto da simples natureza. Sobre este sentimento de liberdade no jogo de nossas faculdades de conhecimento, que, pois, tem que ser ao mesmo tempo conforme afins, assenta aquele prazer que unicamente, é universalmente comunicável, sem contudo se fundar em conceitos. A natureza era bela se ela ao mesmo parecia ser arte; e a arte somente pode ser denominada bela se temos consciência de que ele é arte e de que apesar disso nos parece ser natureza Portanto, quer se trate de beleza natural ou beleza artística, belo é aquilo que apraz no simples ajuizamento, não na sensação e nem tampouco mediante um conceito.

Por outro lado, para algo ser considerado enquanto um fim natural é necessário, primeiramente, que as suas partes (segundo a sua existência e a sua forma, somente sejam possíveis mediante a sua relação com o todo. Com efeito, “a própria causa é um fim, por conseguinte apreendida sob um conceito ou uma idéia que tem que determinar a priori tudo o que nele deve estar contido. Mas na medida em que uma coisa somente é pensada como possível deste modo, é meramente uma obra de arte, isto é, o produto de uma causa racional distinta da matéria (das partes) daquela mesma obra, cuja causalidade (na constituição e ligação das partes) é determinada através da sua idéia de um todo tornado assim possível (por conseguinte não mediante a natureza fora de si)

Contudo, se uma coisa como produto natural deva conter em si mesma e na sua necessidade interna uma relação a fins, isto é, ser somente possível como fim natural e sem a causalidade dos conceitos de seres racionais fora dela, então para tanto deve exigir-se em segundo lugar, que as partes dessa mesma coisa se liguem a unidade ou um todo e que elas sejam reciprocamente causa e efeito de sua forma. Pois, só assim é possível que inversamente ( e reciprocamente) a idéia do todo, por sua vez, determine a forma e a ligação das partes: não como causa - pois que assim seria um produto da arte -, mas sim como fundamento de conhecimento da unidade sistemática da forma e ligação de todo o múltiplo que está contido na matéria dada, para aquele que ajuíza essa coisa” Portanto, em um produto da natureza, cada uma das suas partes só existe mediante as outras, é pensada em função das outras e por causa do todo, ou seja, como instrumento, órgão . Mas apenas isto não basta, pois, ela também poderia ser instrumento da arte e desse modo ser representado em geral somente como fim. Entretanto, quando um órgão produz as outras partes, - consequentemente, cada uma produzindo reciprocamente as outras -, não pode ser instrumento da arte, mas somente da natureza, a qual fornece toda a matéria aos instrumentos (mesmo aos da arte). Somente então e por isso poderemos chamar a um tal produto, enquanto ser organizado e organizando-se a si mesmo, um fim natural.

A beleza da natureza pode com razão ser designada como um analogon da arte, já que ela é atribuída aos objetos somente em relação sobre a intuição externa dos mesmos, consequentemente somente devido as formas superficiais. E a “organização, como fim interno da natureza excede infinitamente toda a faculdade de uma apresentação semelhante através da arte”

Uma vez que a natureza é bela quando possui a aparência de arte e a arte é bela quando tem aparência de natureza, então o produto da arte não deve se apresentar enquanto resultado de um fim, mas sim enquanto algo casual e contingente, “embora a finalidade no produto da arte bela na verdade seja intencional, ela contudo não tem que parecer intencional; isto é, a arte bela tem que passar por natureza, conquanto tenhamos consciência dela como arte. Um produto da arte, porém, aparece como natureza pelo fato de que na verdade foi encontrada toda a exatidão no acordo com regras segundo as quais, unicamente, o produto pode tornar-se aquilo que ela deva ser, mas sem esforço, sem que transpareça a forma acadêmica, isto é, sem mostrar um vestígio de que a regra tenha estado diante dos olhos do artista e tenha algemado as faculdades de seu ânimo” . Portanto, o que a arte bela tem em comum com a bela natureza é precisamente a impossibilidade de julgá-la com base no principio do realismo da finalidade, pois, ou o ignoramos ou dele nos abstraímos. A arte deve parecer um produto da natureza, o que implica em dizer que a bela arte deve derivas as suas regras basicamente da natureza do sujeito. E a faculdade pela qual a natureza do sujeito dá regra à arte e o Gênio; isto é, “Gênio é o talento (dom natural) que dá a regra à arte. Já que o próprio talento enquanto faculdade produtiva inata do artista pertence à natureza, também se poderia expressar assim Gênio é a inata disposição de ânimo pela qual a natureza dá a regra à arte” . Portanto, quando Kant nos diz que a natureza só é bela quando possui aparência de arte, então, ele concebe a arte enquanto pura e simples intencionalidade (finalidade prática e técnica); em suma, a arte é apreendida por Kant no seu significado geral de operação que procede segundo fins. Entretanto, ele não pensa em arte mecânica, sim na arte bela, naquele tipo de arte que possui aparência de natureza. Contudo, quando fala de arte com aparência de natureza, não se esta falando da natureza que produz organismos, mas na natureza bela (contingência da natureza bela). Arte e natureza se identificam na beleza, “conservando a única intencionalidade compatível com a contingência da natureza, se faz arte bela, e a natureza, conservando a única contingência compatível com a intencionalidade da arte se faz natureza bela: a intencionalidade da arte humana se tempera com a contingência natural, a contingência da natureza como organismos se funde com a intencionalidade da arte humana; o espírito se faz natureza, e a natureza espírito; o espírito toma o caráter da natureza, e a natureza toma o caráter do espírito. (...)Se a arte fosse somente intencional, não seria bela, mas seria somente arte mecânica; se a natureza fosse somente contingente, não seria bela, mas seria somente organismo. (...)A coincidência de contingência e intencionalidade é a espontaneidade, que é um proceder ao acaso que é conjuntamente procurar; inventar que emerge de um tentar, e tentar em vista de um inventar. Nesse sentido, o organismo se torna a obra de arte da natureza enquanto arte, e a obra é organismo produzido pela arte enquanto natureza” . Deste modo, os produtos da bela natureza e os da bela arte são, concomitantemente, intencionais e contingente, e desta maneira, são contempláveis. “Natureza e arte são ambas produtoras espontâneas de formas, organismos dotados de uma espontânea, isto é, contingente e ao mesmo tempo intencional, finalidade interna, e precisamente por isso, contempláveis . A produção enquanto produção de formas é figuração intencional e contingente, e o produto de tal figuração é por si mesmo contemplável” . Neste sentido, Pareyson nos pergunta acerca da natureza estética kantiana: A estética de Kant é uma estética da contemplação ou da produção?; A estética kantiana é uma filosofia do belo por natureza ou uma filosofia da arte?; Qual o lugar da arte no sistema crítico kantiano?

Diferentemente de Gadamer , Pareyson conclui que a estética kantiana, indubitavelmente, procura ser uma filosofia da contemplação estética, entretanto, ela acaba por se tornar uma estética da produção. “Na verdade, o tratamento da contemplação inevitavelmente conduz Kant a falar de expressão, a propósito do sublime, e de identidade, ou pelo menos da analogia entre natureza bela e arte bela. No fundo, a bem se ver, o próprio Kant tem consciência dessa profunda tendência da sua estética, da qual procedem as estéticas românticas da produção, quando afirmam a centralidade do conceito de arte. Na estética kantiana, o conceito central é o conceito de arte, contrariando a quanto possa parecer, com base na interpretação, segundo a qual a estética kantiana não pode senão justificar o belo por natureza” . Esta concepção pode ser justificada a partir de três pontos. Primeiramente, natureza e arte tão estão estreitamente ligadas na Terceira Crítica que não é possível separar juízo estético do juízo teleológico e juízo teleológico do juízo estético, como atesta a concepção de beleza aderente. Em segundo lugar, temos o fato de ser a arte o tema central da Crítica do Juízo, visto que, a filosofia possui apenas duas ( metafísica dos costumes e metafísica da natureza), enquanto que a crítica tem três, pois, às duas primeiras é necessário que se acrescente uma terceira, com o objetivo de buscar no sujeito o ponto de encontro dos dois mundos, “ver-se-á que o novo modo de considerar os dois mundos, isto é, uma novo modo de considerar a natureza, tal que a ponha em acordo com a razão, é a arte, porque a natureza é manifestação do supra-sensível das faculdades do sujeito, no qual, a natureza em nós está unida com a razão, e consequentemente, também a natureza fora de nós, é o gênio, que é verdadeiramente o superador do conhecimento e da moralidade, em uma esfera na qual estas duas mesmas atividades são unificadas . Em terceiro lugar, na própria tabela que Kant propõe à Terceira Crítica, e na qual o sistema das três críticas é reassumido, com referência do sistema das duas partes da filosofia (Natureza e Liberdade), explicitamente, a arte é posta entre os dois. “Toda a Crítica do Juízo vem posta sob a única e comum insígnia da arte” , o que verdadeiramente vem confirmar a grande importância que assume na doutrina kantiana a concepção de beleza aderente, como aquela que une - na natureza compreendida enquanto arte e na arte enquanto natureza - as duas partes da crítica do juízo - o juízo estético e o juízo teleológico - reunidas sob o conceito de arte.




Notas

PAREYSON, 1968, p.157


kANT, 1993, §58, P.192

KANT, 1993, § 45, p. 152

KANT, 1993, §65, p.215-6

Com respeito a esta questão, Lukács observa que com relação à conformidade a lei contingente, daquilo que é finalístico (o organismo), Kant não pensa absolutamente em eliminar a necessidade causal e a conformidade à lei, e sim conservá-la no seio da objetividade (possível, no seu sistema) da causalidade concebida à maneira mecânica. A exigência de uma conformidade a leis dos organismos tem mais peso na medida em que Kant tem a exata sensação de que qualquer modo fenomênico concreto e específico da vida, considerado do ponto de vista da pura e simples conformidade às leis mecânicas, deve ter um insuprimível caráter contingente: que a natureza, considerada como um mero mecanismo, teria podido configurar-se de mil outras maneiras A persistência de tal exigência ocorre porque a concepção kantiana metafísica e a-historica do mundo torna impossível uma justa compreensão do finalismo na vida orgânica. Kant define o finalismo do seguinte modo: uma coisa existe como fim da natureza quando é causa e existe como fim da natureza quando é causa e efeito de si mesmo (embora em duplo sentido) Daí resultaria, por um lado, que ela se produz a si mesma tanto como gênero quanto como indivíduo; e, por outro , que deve existir entre as partes uma conexão tal ‘que a conservação da parte e a conservação do todo dependam uma da outra’; que “as partes (relativamente a existência e a forma delas) só sejam possíveis através de sua relação com o todo”. Segundo Lukács, ao invés de Kant descobrir aqui uma nova forma superior dos nexos conformes a leis, ao invés de desenvolver dialeticamente daquilo que é mecânico a “força formativa” ( por ele contraposta à “força unicamente motriz” da mecânica), ainda uma vez mais o pensamento kantiano se prende a uma contraposição rígida, tão metafísica quando agnóstica, como vemos aqui: “Falando rigorosamente, a organização da natureza não tem, pois, analogia alguma com qualquer causalidade que conhecemos”. O “juízo estético é uma particular faculdade de julgar as coisas segundo uma regra mas não segundo conceitos”. “Assim , em Kant, a estética se torna não só subjetivista como também formalista: o afastamento do conceito importa na dissolução do conteúdo. (...) Em suma: a estética se transforma dessa maneira em um ‘parque reservado da natureza’, cuidadosamente isolado da esfera modo de consideração teleológico, não possui nenhuma ‘faculdade particular, mas é simplesmente o juízo reflexivo em geral’. É um conhecimento por conceitos, porém tal que não pode haver nenhum poder ‘objetivamente determinante’. Deste modo, a objetividade científica para a biologia é simultaneamente requerida e negada”(LUKÁCS, 1968, p.19-22)

KANT, 1993, §65, p.216

KANT, 1993, §68, p.226

KANT, 1993, §45, p.152

KANT, 1993, §46, p.153

PAREYSON, 1666, p.187-8

Pareyson estrutura a sua teoria da formatividade a partir da noção de forma, tomada de forma original da teoria de Kant. Forma é compreendida enquanto organismo, que goza de vida própria e que possui a sua própria legalidade interna, isto é, totalidade irrepetível em sua singularidade, independente em sua autonomia, exemplar em seu valor, fechada e aberta ao mesmo tempo, finita e ao mesmo tempo encerando um infinito, perfeita na harmonia e unidade de sua lei de coerência, inteira na adequação reciproca entre as partes e o todo. Além disto, esta noção é apreendida por Pareyson em seu caráter dinâmico, ou seja, enquanto resultante de um processo de formação, pois, a forma não pode ser vista como tal se vê no ato de concluir e ao mesmo tempo incluir o movimento de produção que lhe dá nascimento e aí encontro o próprio processo.

“A beleza da natureza é a beleza de formas e, por conseguinte, evidente a um olhar que saiba ver a forma como forma, depois de a ter procurado, indagado, perscrutado, interpretado para, enfim, contemplá-la e desfrutá-la. A visão e a apreciação do belo natural pressupõem portanto esforço de interpretação, exercício de fidelidade, disciplina de atenção, concentração de olhar, educação do modo de ver, para poder um dia chegar aquela visão profunda e capaz de realmente ver o que é, por um lado, visão de formas e, por outro, produção de formas. Pois, forma interpretada e imagem formada devem coincidir na adequação da própria contemplação”. Deste modo, a contemplação do belo natural é ao mesmo tempo visão de formas e produção de formas. (PAREYSON, 1993, p. 204)

Do mesmo modo, a obra de arte enquanto tal é essencialmente objeto de consideração dinâmica: “ela revela a sua perfeição somente a quem sabe considerá-la como a conclusão de um processo, a quem sabe considerá-la como a conclusão de um processo, a quem sabe captar e delinear seu processo criativo, a quem sabe captar e delinear seu desenho criativo, a quem sabe resgatá-la da sua aparente imobilidade para colhê-las no movimento de onde nasceu; e, de fato, na contemplação o olho não é imóvel, mas percorre lado a lado, circula através da lei de coerência que mantém unida numa estrutura perfeita e numa totalidade indivisível, colhe a obra no ato de chegar a ser como ela própria queria ser, de adequar-se consigo, e de aprovar-se tal como resultou”(PAREYSON, 1983, p. ).

PAREYSON, 1964, p.188

Para Gadamer, a crítica do gosto é uma preparação para teleologia. A Faculdade de Julgar representa a ponte entre o entendimento e a razão. Entretanto, o conceito de gênio não é totalmente desprezado por Kant. Basta olharmos para o modo como o filósofo descreve o gênio: “Gênio é talento ( dom natural) que dá à arte a regra. Já que o talento, como faculdade produtiva inata do artista, pertence, ele mesmo, à natureza, poderíamos também exprimir-nos assim. Gênio é a disposição natural inata pela qual a natureza dá à arte a regra. Desde modo, o máximo que Kant consegue é nivelar esteticamente os produtos das belas artes com a beleza natural. Tanto o belo na natureza quanto nas artes possui um único princípio a priori, e este se encontra inteiramente na subjetividade. A reflexão transcendental de Kant sobre um a priori, da Terceira Crítica, justifica a pretensão do juízo estético, porém não admite uma estética filosófica.



PAREYSON, 1968, p.189.

”PAREYSON, 1968, p. 190

cf. KANT, 1993, tabela p.42

PAREYSON,1968, p.190







BIBLIOGRAFIA







GADAMER, Hans-Georg. Verdad y Metodo; Fundamentos de uma hermeneutica filosofica. Salamanca: Ediciones Sigueme, 1977.

LUKÁCS, George. “A questão Lógica do Particular em Kant e Schellin”. In: Introdução a uma Estética Marxista. - Sobre a Categoria da Particularidade; tradução de Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder. - Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1968.

KANT, Imanuel. A Crítica do Juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993

PAREYSON, Luigi. L’Estetica di Kant. Milano: Mursia, 1968.

_______________. Problemas de Estética. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

_______________. Estética; Teoria da Formatividade; tradução de Ephraim Ferreira Alves. - Petropolis: Vozes, 1993




Sobre o conceito de gosto





Curioso, como insistem em trabalhar o conceito de gosto apenas no sentido (quase) culinário. São inúmeros os exemplos de artigos, onde, o crítico apenas afirma as sua preferências. A análise fundamentada é algo raro de se encontrar nos dias de hoje.


De acordo com Gadamer, a longa história do conceito de gosto - que precede a sua utilização por Kant como fundamento da Crítica da Faculdade do Juízo - permite reconhecer que originalmente o conceito de gosto é mais moral do que estético.  Tal conceito descreve um ideal de humanidade autentica, e deve a sua cunhagem aos esforços por se separar criticamente do dogmatismo da escolástica.  Somente bem mais tarde, o uso deste conceito se restringirá as “belas artes”.  A sua origem se remonta a Baltasar Gracián que considera que o gosto sensorial contem já o germe da distinção que se realiza no julgamento espiritual das coisas.  O discernimento sensível que para o gosto não é senão que já se encontra a meio caminho entre o instinto sensorial e a liberdade espiritual.  O gosto sensorial se caracteriza precisamente porque com sua eleição o juízo logra por si mesmos distanciar-se com respeito as coisas que formam parte das necessidades mais urgentes da vida.  Desta forma, o gosto pode ser considerado como uma primeira espiritualização da animalidade e ponto de partida da formação social; representando não somente o ideal que delineia uma nova sociedade, mas também sob o signo deste ideal (do bom gosto) se estabelece pela primeira vez o que então receberá o nome de boa sociedade.  Esta se reconhece pelo fato de que acerta ao fundar-se por cima da estupidez dos interesses e da privacidade das preferências, estabelecendo a pretensão de julgar.  Portanto não há dúvidas de que com o conceito de gosto esta dado uma certa referência a um modo de conhecer.  Entretanto, Terceira Crítica representa a ruptura com tal tradição e também a introdução de um novo desenvolvimento na história do gosto, pois, o restringir o conceito de gosto ao âmbito, no qual, pode afirmar uma validade autônoma e independente na qualidade de princípio próprio da faculdade do juízo.  A intenção transcendental (que guiou Kant) encontrou sua satisfação no fenômeno restrito do juízo sobre o gosto ( e sobre o sublime), e desprezou o conceito mais geral da experiência do gosto, assim como a atividade da faculdade de juízo estética no âmbito do direito e do costume.  Isto reveste se de uma importância que não convém subestimar, uma vez que aquilo que foi desprezado é justamente o elemento no qual viviam os estudos filológicos-históricos e do que unicamente houvera podido ganhar sua auto-compreensão plena quando fundamentaram metodologicamente sob o nome de ciências do espirito junto às ciências naturais.  Agora, em virtude do planejamento transcendental de Kant, fechou-se o caminho que houvera permitido reconhecer a tradição, cujo, cultivo e estudo ocupavam-se tais ciências na pretensão específica de verdade.  O que Kant legitimava e queria legitimar por sua vez com a Terceira Crítica era a generalidade subjetiva do gosto estético, no qual, já não há conhecimento do objeto, e, no âmbito das belas artes, a superioridade do gênio sobre qualquer estética regulativa.(cf. Gadamer, Verdad y Metodo, p.66-74)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Onde estão os discos das nossas divas

Foram relançados (reunidos em duas caixas e em cada uma delas há um cd de raridades) todos os discos de nossa Abelha Rainha, Maria Bethânia.  Tudo de muito bom gosto. Ela merece isto e muito mais!

Fica faltando as outras divas da nossa música. Quando teremos a obra completa de Angela Maria, Eliseth Cardoso, Nara Leão e tantas outras.

Cada vez que leio nos jornais que saiu algo novo, vou correndo as lojas e descubro que não passa de uma copilação. Eu fico pensando a culpa é das gravadoras ou dos herdeiros que querem lucrar (e acabam jogando as nossas maiores divas na vala do esquecimento). Creio que os herdeiros devem atrapalhar muito a liberação dessas obras. As gravadoras podem lucrar e muito com os relançamentos, afinal de contas para relançar não se gasta tanto e existe um público que quer a obra material (que não se satisfaz apenas com a versão digital da música).

Discografia de Maria Bethânia


Disco de estúdio

• 1965 - Maria Bethânia - Sony Music/RCA

• 1966 - Maria Bethânia Canta Noel Rosa - Sony Music/RCA

• 1967 - Edu e Bethânia - Universal Music/Elenco

• 1969 - Maria Bethânia - EMI

• 1971 - A Tua Presença... - Universal Music/Philips/Polygram

• 1971 - Vinicius + Bethânia + Toquinho - en La Fusa (Mar de Plata) - RGE

• 1972 - Drama - Universal Music/Philips/Polygram

• 1976 - Pássaro proibido - Universal Music/Philips/Polygram

• 1977 - Pássaro da manhã - Universal Music/Philips/Polygram

• 1978 - Álibi - Universal Music/Philips/Polygram

• 1979 - Mel - Universal Music/Philips/Polygram

• 1980 - Talismã - Universal Music/Philips/Polygram

• 1981 - Alteza - Universal Music/Philips/Polygram

• 1983 - Ciclo - Universal Music/Philips/Polygram

• 1984 - A beira e o mar - Universal Music/Philips/Polygram

• 1987 - Dezembros - Sony Music/RCA

• 1988 - Maria - Sony Music/RCA

• 1989 - Memória da pele - Universal Music/Polygram

• 1990 - 25 anos - Universal Music/Polygram

• 1992 - Olho d'água - Universal Music/Polygram

• 1993 - As canções que você fez pra mim - Universal Music/Polygram

• 1993 - Las canciones que hiciste para mí - Philips-PolyGram

• 1996 - Âmbar - EMI

• 1999 - A força que nunca seca - Sony Music

• 2001 - Maricotinha - Sony Music

• 2003 - Cânticos, preces, súplicas à Senhora dos jardins do céu na voz de Maria Bethânia - Sony Music/Biscoito Fino

• 2003 - Brasileirinho - Quitanda

• 2005 - Que falta você me faz - Músicas de Vinicius de Moraes - Biscoito Fino

• 2006 - Pirata - Quitanda

• 2006 - Mar de Sophia - Biscoito Fino

• 2007 - Omara Portuondo e Maria Bethânia - Biscoito Fino

• 2009 - Encanteria - Quitanda

• 2009 - Tua - Biscoito Fino

Discos ao Vivo

• 1968 - Recital na Boite Barroco - EMI

• 1970 - Maria Bethânia Ao vivo - EMI

• 1971 - Rosa dos ventos Ao vivo - Universal Music/Philips/Polygram

• 1973 - Drama 3º ato - Universal Music/Philips/Polygram

• 1974 - Cena muda - Universal Music/Philips/Polygram

• 1975 - Chico Buarque & Maria Bethânia ao vivo - Universal Music/Philips/Polygram

• 1976 - Doces bárbaros - Universal Music/Philips/Polygram

• 1978 - Maria Bethânia e Caetano Veloso - ao vivo - Universal Music/Philips/Polygram

• 1982 - Nossos Momentos - Universal Music/Philips/Polygram

• 1995 - Maria Bethânia: Ao vivo - Universal Music/Polygram

• 1997 - Imitação da Vida - EMI

• 1998 - Diamante Verdadeiro - Sony Music

• 2002 - Maricotinha: Ao Vivo - Biscoito Fino

• 2007 - Dentro Do Mar Tem Rio - Biscoito Fino

• 2010 - Amor, Festa, Devoção - Biscoito Fino



Single Compactos

• 1965 - Maria Bethânia - Sony Music/RCA

• 1965 - Maria Bethânia - Sony Music/RCA

Os shows

• Nós, por exemplo (1964)

• Nova bossa velha, velha bossa nova (1964)

• Mora na Filosofia (1964)

• Opinião (1965)

• Arena canta Bahia (1966)

• Tempo de Guerra (1966)

• Pois é (1966)

• Recital na Boite Cangaceiro (1966)

• Recital na Boite Barroco (1968)

• Yes, nós temos Maria Bethânia (1968)

• Comigo me desavim (1968)

• Recital na Boite Blow Up (1969)

• Brasileiro, Profissão Esperança (1970)

• Rosa dos Ventos (1971)

• Drama - Luz da noite (1973)

• A cena muda (1974)

• Chico & Bethânia (1975)

• Os Doces Bárbaros (1976)

• Pássaro da manhã (1977)

• Maria Bethânia e Caetano Veloso (1978)

• Maria Bethânia (1979)

• Mel (1980)

• Estranha forma de vida (1981)

• Nossos momentos (1982)

• A hora da estrela (1984)

• 20 anos (1985)

• Maria (1988)

• Dadaya - As sete moradas (1989)

• 25 anos (1990)

• As canções que você fez pra mim (1994)

• Âmbar - Imitação da vida (1996)

• A força que nunca seca (1999)

• Maricotinha (2001)

• Brasileirinho (2004)

• Tempo, tempo, tempo, tempo (2005)

• Dentro do mar tem rio (2006)

• Omara Portuondo e Maria Bethânia (2008)

• Amor, Festa, Devoção (2009/2010)

Quem sou eu

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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil
Graduado nos cursos de Filosofia e História pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Filosofia da Arte e Estética pela mesma Universidade. Atualmente sou professor assistente b do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH). Tenho experiência na área de Filosofia, com ênfase em História e Filosofia da Arte, atuando principalmente nos seguintes temas: fundamentos filosóficos da educação, introdução ao pensamento científico e filosofia da ciência, cinema e artes visuais, aspectos formais da arte, criatividade, processo de criação, estética da formatividade de Luigi Pareyson, cultura e modernidade brasileira.